Investigações recentes colocam collabs, impulsionamento e responsabilidade de criadores no centro das regras eleitorais brasileiras.
As redes sociais deixaram de ser apenas espaços de entretenimento e passaram a ocupar uma posição importante na comunicação política brasileira. Com a campanha das Eleições 2026 em andamento, influenciadores, criadores de conteúdo e administradores de páginas precisam compreender que publicar uma opinião política é diferente de participar de uma estratégia de propaganda eleitoral remunerada ou coordenada. A questão ganhou novo destaque nesta semana após o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) solicitar informações ao Facebook e à Shopee sobre uma investigação que apura possível atuação coordenada de contas do Instagram por meio de publicações em coautoria, conhecidas como “collabs”. (Justiça Eleitoral)
O caso ajuda a explicar uma dúvida cada vez mais pesquisada por criadores brasileiros: até onde um influenciador pode ir ao falar de política durante uma eleição? A resposta depende de fatores como remuneração, impulsionamento, identificação do conteúdo, participação de campanhas e forma de distribuição.
Por que as collabs entraram no radar da Justiça Eleitoral
A investigação anunciada pelo TSE em 22 de setembro envolve uma ação apresentada pela Coligação Brasil Pronto pra Mais contra Flávio Bolsonaro, Alfredo Gaspar de Mendonça Neto e Mario Frias. Segundo a representação, uma rede de contas teria utilizado publicações em coautoria no Instagram para ampliar conteúdos eleitorais, e a Justiça Eleitoral determinou a preservação e o fornecimento de informações pelas plataformas. É importante destacar que a investigação apura alegações e não representa, por si só, uma conclusão definitiva sobre responsabilidade dos investigados. (Justiça Eleitoral)
Para quem trabalha profissionalmente com redes sociais, o episódio mostra por que ferramentas aparentemente comuns de distribuição podem adquirir relevância eleitoral. O TSE estabelece regras específicas para propaganda na internet e permite determinadas formas de participação orgânica de pessoas naturais, mas também impõe restrições à remuneração, monetização e utilização de mecanismos artificiais ou irregulares para ampliar o alcance de mensagens políticas. (Justiça Eleitoral)
O que um influenciador pode publicar durante a campanha
A legislação eleitoral não transforma todo criador que comenta política em cabo eleitoral ou integrante de campanha. O próprio TSE informa que a propaganda eleitoral pode circular em redes sociais e aplicações de internet, mas existem regras para impulsionamento, identificação e produção de conteúdo. A Corte também esclarece que perfis de pessoas naturais com grande audiência podem participar de mobilizações e ampliar organicamente uma mensagem eleitoral, desde que sejam respeitados os limites estabelecidos pelas normas. (Justiça Eleitoral)
O ponto de atenção aparece quando existe pagamento, benefício econômico, impulsionamento ou coordenação estruturada. O TSE confirmou nesta semana, por exemplo, uma multa de R$ 10 mil aplicada em caso referente às eleições municipais de 2024 envolvendo impulsionamento de propaganda eleitoral negativa na internet. A decisão reforçou o entendimento de que o impulsionamento eleitoral deve observar a finalidade permitida pela legislação e não pode ser utilizado para ampliar conteúdo negativo contra adversários. (Justiça Eleitoral)
Para o criador, isso significa que publicar conteúdo político exige mais cuidado do que simplesmente verificar se determinada postagem “pode viralizar”. É necessário saber quem produziu o material, se existe relação com alguma campanha, se houve remuneração ou vantagem econômica e se a publicação utiliza ferramentas pagas de distribuição.
IA, transparência e responsabilidade nas redes em 2026
Outro ponto que ganhou importância nas eleições deste ano é o uso de inteligência artificial. As regras eleitorais de 2026 determinam que conteúdos sintéticos multimídia produzidos ou significativamente alterados por IA sejam identificados de maneira explícita, destacada e acessível quando utilizados em propaganda. O TSE também estabeleceu restrições específicas para publicação, republicação e impulsionamento de novos conteúdos sintéticos próximos ao dia da votação. (Justiça Eleitoral)
A mudança amplia a responsabilidade de quem trabalha profissionalmente com vídeo, imagem, áudio e ferramentas generativas. Um criador pode utilizar tecnologia para produzir conteúdo, mas precisa considerar as regras eleitorais aplicáveis e evitar apresentar material artificial como se fosse uma gravação autêntica. Para as plataformas, o TSE também determinou planos de conformidade envolvendo publicação, compartilhamento, recomendação, monetização, impulsionamento e moderação de conteúdo político-eleitoral. (Justiça Eleitoral)
Para os influenciadores brasileiros, a principal consequência prática é que o período eleitoral exige uma separação mais cuidadosa entre opinião pessoal, publicidade comercial e propaganda política. O criador que trabalha simultaneamente com marcas, campanhas e produção de conteúdo precisa manter registros e compreender as condições de cada parceria. No campo da publicidade comercial, o CONAR também atualizou em 2026 seu guia sobre publicidade feita por influenciadores, incluindo orientações sobre transparência, identificação publicitária, testemunhais, proteção de crianças e adolescentes e utilização de inteligência artificial. (CONAR)
Com o primeiro turno marcado para 4 de outubro de 2026, a atenção sobre o conteúdo digital tende a aumentar. (Justiça Eleitoral) Para quem produz conteúdo, o cenário exige mais transparência sobre relações comerciais, cuidado com materiais políticos recebidos de terceiros e atenção especial a impulsionamentos e ferramentas de inteligência artificial. A audiência continua sendo um ativo importante para qualquer criador, mas as regras eleitorais estabelecem limites específicos para sua utilização durante uma campanha.
A tendência observada nos últimos dias também mostra que a Justiça Eleitoral está acompanhando não apenas anúncios tradicionais, mas diferentes mecanismos de distribuição e colaboração utilizados pelas plataformas. Para influenciadores e marcas, compreender essas regras antes de publicar pode ser tão importante quanto produzir um conteúdo atraente. Em um ambiente eleitoral altamente digitalizado, transparência, identificação e documentação das relações comerciais ajudam a diferenciar uma manifestação espontânea de uma ação que pode ser analisada como propaganda eleitoral irregular. (Justiça Eleitoral)

