Márcio Pires de Moraes, profissional especializado em análise financeira e composição de custos, indica que o efeito de uma variação cambial sobre o custo de uma empresa está ocorrendo com maior frequência em comparação com anos anteriores. Cadeias de suprimento mais integradas e digitais reduziram o tempo entre uma alta do dólar e o repasse desse custo ao preço final da operação.
Empresas que dependem de insumos importados, mesmo que de forma indireta, são afetadas por esse efeito, mesmo sem negociar diretamente em moeda estrangeira, porque o fornecedor nacional já incorpora a variação cambial no preço repassado ao cliente seguinte da cadeia produtiva.
Ao longo deste artigo, fica mais claro por que o monitoramento de câmbio deixou de ser uma tarefa exclusiva de quem importa ou exporta diretamente e passou a interessar praticamente qualquer estrutura de custo.
Por que o efeito do câmbio ficou mais rápido?
De acordo com o parecer de Marcio Pires de Moraes, a integração digital entre fornecedores domésticos e internacionais reduziu drasticamente o tempo de resposta entre a alta do dólar e a subsequente transmissão desse custo aos adquirentes de insumos no mercado interno.
Esse fenômeno, que reajusta preços em um curto espaço de tempo, torna o planejamento financeiro insuficiente, pois não considera a exposição cambial trimestralmente ou apenas no fechamento anual do orçamento. Assim, uma empresa que adquira embalagens, componentes eletrônicos ou insumos químicos no mercado nacional pode estar exposta à volatilidade cambial, mesmo sem perceber, simplesmente porque o seu fornecedor também adquire parte do que revende em dólares.
Esse tipo de exposição indireta geralmente passa despercebido justamente porque o contrato é assinado em reais. A empresa só se dá conta do efeito do reajuste quando ele já foi implementado pelo fornecedor, que alega motivos genéricos de mercado, sem oferecer explicações sobre a origem cambial real do aumento.
O que fazer diante de um câmbio mais volátil e imprevisível?
Márcio Pires de Moraes ressalta que o primeiro passo a ser tomado é mapear, no âmbito da própria cadeia de custo, quais insumos e serviços apresentam alguma exposição cambial indireta, mesmo quando a compra é realizada integralmente em reais.
Esse mapeamento tende a identificar uma dependência cambial superior à estimada pela empresa, sobretudo em operações que terceirizam parte da produção ou dependem de tecnologia com componentes importados incorporados ao processo produtivo.

Com base no mapeamento realizado, é possível tomar decisões mais conscientes sobre a negociação de contratos de preço fixo com fornecedores críticos, a diversificação da origem dos insumos ou a reserva de uma margem de segurança para a absorção da variação cambial.
Empresas que já adotam esse tipo de prática geralmente utilizam cenários simples, como simular o efeito de uma alta de dez por cento no dólar sobre o custo total, para decidir antecipadamente qual resposta é mais apropriada antes que a variação realmente ocorra.
Embora nenhuma dessas alternativas elimine o risco cambial por completo, cada uma reduz a velocidade com que uma alta do dólar chega ao resultado financeiro da empresa, oferecendo mais tempo para reagir antes que o impacto se torne excessivamente significativo para ser absorvido de uma só vez.
Planeje o câmbio antes da próxima virada
Em concordância com o parecer de Márcio Pires de Moraes, o tratamento da exposição cambial como parte do acompanhamento contínuo do custo, e não como um evento revisado esporadicamente uma vez por trimestre, é o que permite uma resposta à altura da velocidade com que o efeito do câmbio se propaga atualmente.
Embora não seja possível prever a taxa de câmbio com precisão absoluta, é essencial reduzir a margem entre a mudança cambial e o ajuste de preço ou de fornecedor necessário para proteger a rentabilidade da operação como um todo.
O câmbio deixou de ser um assunto restrito a quem compra e vende em dólar diretamente. Atualmente, é possível percorrer a cadeia de custo de qualquer empresa em poucas semanas. Ignorar esse procedimento pode resultar em custos mais elevados do que monitorá-lo de perto.
Além disso, empresas que passam a acompanhar essa exposição com a mesma regularidade dedicada a outros indicadores financeiros, como observa Márcio Pires de Moraes, conseguem perceber o efeito do câmbio antes que ele chegue ao preço final. A antecipação permite avaliar cenários e ajustar decisões antes que a correção se torne inevitável e mais custosa.

