Uma safra recorde pode terminar com o caixa apertado, e Parajara Moraes Alves Junior, contador especialista em agronegócio, explica que a resposta muitas vezes está em custos que não aparecem no extrato bancário. Na contabilidade rural, faturamento é o valor das vendas, enquanto resultado é o que sobra depois de todos os custos, inclusive os que não exigem desembolso imediato. Confundir as duas medidas leva a decisões de investimento e de endividamento baseadas em uma rentabilidade que não existe. Também mascara a real situação de culturas e talhões que consomem recursos sem retorno.
Receita, custo e resultado não são a mesma coisa
Os custos diretos são os mais visíveis: sementes, fertilizantes, defensivos, combustível e mão de obra aplicada na lavoura. Os indiretos, como administração, manutenção, energia, contador e seguros, ficam diluídos e costumam ser esquecidos na hora de avaliar uma cultura.
Um exemplo hipotético ajuda a medir a diferença. Uma lavoura que colhe 60 sacas por hectare vendidas a R$ 120 gera R$ 7.200 de receita por hectare. Se os custos diretos somam R$ 5.000, a margem parece confortável. Segundo Parajara Moraes Alves Junior, porém, a conta só fica completa quando entram os itens que o produtor raramente lança. Depreciação, remuneração do próprio trabalho, juros e custos indiretos podem consumir boa parte dos R$ 2.200 restantes por hectare.
Depreciação, o custo que não sai do bolso hoje
Máquinas, implementos, silos e benfeitorias perdem valor a cada ano de uso. Um trator de R$ 800 mil com vida útil estimada em dez anos representa cerca de R$ 80 mil de custo anual, mesmo que nenhum pagamento seja feito no período. Ignorar a depreciação infla o lucro aparente.
O efeito aparece no momento da troca. Sem ter reservado parte do resultado ao longo dos anos, o produtor precisa recorrer a financiamento para repor um equipamento que já deveria estar pago. O endividamento cresce, e a fazenda passa a trabalhar para pagar juros.

A depreciação também separa o desempenho da safra do ritmo de investimentos. Um ano em que o produtor comprou uma colheitadeira à vista parece ruim no caixa, mas a máquina vai servir a várias safras. O custo precisa ser distribuído entre elas para que cada resultado seja comparável.
Quanto vale o trabalho do próprio produtor?
Muitos produtores não incluem a própria remuneração nos custos. Se a mesma função fosse exercida por um gerente contratado, haveria salário e encargos, e o resultado da fazenda seria menor. Sem esse pró-labore, a margem calculada mistura retorno do negócio com pagamento pelo trabalho. Em fazendas familiares, o mesmo vale para filhos e cônjuges que trabalham sem salário formal.
A terra também tem custo de oportunidade. Uma área que poderia ser arrendada a terceiros gera, em tese, uma renda que o produtor deixa de receber ao explorá-la diretamente. Na avaliação de Parajara Moraes Alves Junior, comparar o resultado da atividade com o valor do arrendamento e com os juros do custeio mostra se produzir está, de fato, compensando.
Como a contabilidade rural monta o resultado da safra
O instrumento adequado é o demonstrativo de resultado por safra e por cultura, elaborado pelo regime de competência. O livro caixa fiscal registra entradas e saídas na data do pagamento. A visão gerencial, ao contrário, associa cada custo à safra que ele ajudou a produzir, inclusive estoques e insumos comprados antecipadamente. Despesas de custeio pagas em um ano para a safra seguinte, por exemplo, distorcem o resultado quando analisadas apenas pelo caixa.
Com o demonstrativo pronto, indicadores como margem líquida por hectare e ponto de equilíbrio em sacas indicam quanto é preciso colher para cobrir todos os custos. Comparar os indicadores entre safras e entre culturas revela onde a fazenda ganha e onde perde dinheiro. Para Parajara Moraes Alves Junior, enxergar esse número antes do plantio permite ajustar área, tecnologia e comercialização enquanto ainda há tempo de mudar o resultado.

