Antes do Aero Willys, praticamente todo carro fabricado no Brasil era, na essência, um projeto estrangeiro apenas montado em solo nacional. Esse cenário começou a mudar em 1960, quando a Willys-Overland do Brasil lançou o Aero Willys, sedã que, em sua versão de 1963, batizada 2600, se tornaria o primeiro automóvel verdadeiramente concebido por engenheiros brasileiros, um tipo de protagonismo nacional raríssimo na indústria automotiva da época, observa o colecionador de veículos antigos Mário Augusto de Castro, quando a totalidade das montadoras instaladas no país se limitava a reproduzir, com pequenas adaptações, projetos já prontos vindos de matrizes estrangeiras.
A história do Aero Willys começou nos Estados Unidos, onde a Willys-Overland americana desenvolveu, ainda na primeira metade dos anos 1950, um projeto de sedã de passeio para tentar competir no mercado civil, algo que a empresa não fazia desde antes da Segunda Guerra Mundial. O projeto americano não vingou comercialmente, e todo o ferramental de produção acabou enviado ao Brasil, onde a Willys aproveitaria a base para lançar sua própria versão do carro, adaptada às condições e ao gosto do consumidor nacional.
De projeto americano descartado a primeiro Aero brasileiro
O Aero Willys, lançado no Brasil em 25 de março de 1960, reproduzia a carroceria arredondada do modelo americano descontinuado, mas usava mecânica derivada diretamente do Jeep, incluindo o mesmo motor seis cilindros em linha de 2,6 litros que equipava outros veículos da marca fabricados no país. Essa combinação entre carroceria de sedã elegante e mecânica robusta de origem utilitária era incomum, mas se mostrou funcional o suficiente para conquistar espaço no mercado brasileiro daquele início de década.
Aproveitar o ferramental de um projeto americano abandonado, em vez de desenvolver uma carroceria totalmente nova, nota Mário Augusto de Castro, foi uma decisão pragmática que permitiu à Willys entrar rapidamente no segmento de sedãs de passeio sem os custos e riscos de um desenvolvimento independente completo. Essa entrada relativamente barata no segmento acabaria, poucos anos depois, abrindo caminho para uma iniciativa bem mais ambiciosa dentro da própria fábrica brasileira.
O Aero 2600 e seu título de primeiro carro genuinamente brasileiro
Em 1963, a Willys do Brasil apresentou o Aero 2600, reestilização completa do modelo original com linhas retas e modernas para os padrões da época, elevando também a potência do motor para 110 cavalos. Diferente da versão anterior, esse novo projeto de carroceria foi encabeçado por uma equipe de engenheiros brasileiros liderada por Roberto Araújo, ainda que baseado em estudos preliminares de estilo desenvolvidos originalmente por um consultor americano contratado pela matriz.
O fato de a execução final, os ajustes técnicos e boa parte das decisões de engenharia terem sido conduzidos por profissionais brasileiros justifica tratar o Aero 2600 como o primeiro sedã genuinamente nacional, mesmo reconhecendo a influência inicial de estudos estrangeiros no processo, destaca Mário Augusto de Castro. Poucos projetos automotivos da época podiam reivindicar esse grau de protagonismo técnico local, o que tornou o 2600 um marco simbólico para a engenharia automotiva brasileira daquele período.
Por que os engenheiros brasileiros decidiram apresentar o carro em Paris?
Tão orgulhosa estava a equipe brasileira do resultado final do Aero 2600 que a empresa decidiu apresentar o carro no Salão de Paris, em setembro de 1962, um mês antes mesmo de sua apresentação oficial no Salão de São Paulo. Essa escolha, incomum para um projeto nacional daquela época, refletia a confiança da equipe de engenharia brasileira na qualidade do trabalho realizado, buscando validação internacional antes mesmo de expor o carro ao público doméstico.

Mário Augusto de Castro considera esse episódio um dos mais simbólicos de toda a história do Aero Willys: apresentar, em um dos salões automotivos mais importantes do mundo, um projeto desenvolvido majoritariamente por engenheiros brasileiros demonstrava um nível de confiança técnica raro para a indústria nacional daquele período, ainda vista internacionalmente como pouco mais que montadora de projetos estrangeiros sem qualquer capacidade de inovação própria.
O que aconteceu com o Aero Willys depois da compra pela Ford?
Em 1967, a Willys foi vendida à Ford, que gradualmente foi fundindo o Aero com o Ford Galaxie, chegando a testar uma versão equipada com o motor V8 do Galaxie. O teste, realizado na estrada para Santos, revelou problemas graves de estabilidade e frenagem do chassi original diante da potência do novo motor, episódio que ajudou a encerrar de vez qualquer plano de continuar desenvolvendo o Aero sob a nova gestão americana. Em 1971, a produção do modelo foi definitivamente interrompida.
Ainda assim, o legado do Aero Willys sobreviveu através de seus derivados diretos: a versão de luxo batizada Itamaraty, lançada em 1966, e posteriormente a limusine Itamaraty Executivo, de 1967, primeira produzida em série no país e destinada a transportar chefes de Estado e autoridades brasileiras em cerimônias oficiais. O carro que começou como aproveitamento de um projeto americano descartado terminou, portanto, como base de um dos capítulos mais nobres da história automotiva institucional brasileira, comenta Mário Augusto de Castro.
O destino do Aero Willys depois da compra pela Ford
O caso do Aero Willys mostra como a indústria automotiva nacional, ainda nos anos 1960, já começava a construir capacidade própria de engenharia, mesmo partindo frequentemente do aproveitamento de projetos estrangeiros descartados ou de parcerias internacionais. O salto do Aero original, herdado dos Estados Unidos, para o Aero 2600, majoritariamente desenvolvido por brasileiros, ilustra uma transição gradual rumo a mais autonomia técnica dentro do setor.
Esse tipo de trajetória, de dependência total a protagonismo técnico crescente, reflete Mário Augusto de Castro, é um capítulo pouco lembrado da história automotiva brasileira, mas essencial para entender como o país, décadas depois, conseguiria desenvolver projetos totalmente independentes de qualquer matriz estrangeira. Para colecionadores de carros antigos, preservar um exemplar do Aero Willys ou de seus derivados significa guardar um fragmento direto dessa transição, do carro montado sob licença ao primeiro sedã verdadeiramente concebido em solo brasileiro.

